Ele representa o agronegócio. E é contra mudar regra ambiental

Publicado em 06/05/2019 por Nexo

Para Luiz Cornacchioni, ‘não dá para negar a mudança climática’.
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Diretor-executivo de entidade do setor de produção diz ainda que alterações em Código Florestal e saída do Acordo de Paris seriam ‘retrocesso’
“Não dá para rasgar compromisso como se rasga guardanapo”, afirmou ao Nexo o agrônomo Luiz Cornacchioni, diretor-executivo da Abag (Associação Brasileira do Agronegócio), em referência a ideias de representantes da política nacional de modificar as regras do Código Florestal, ou de recuar em relação ao Acordo de Paris para o clima.
Apresentando outro lado do agronegócio, Cornacchioni falou com o Nexo na sexta-feira (3), por telefone, e comentou a relação entre o setor e meio ambiente, o papel da agropecuária para o combate à mudança climática e desafios no Brasil em 2019, dissonante de produtores que, diz ele, insistem em não ver a conservação ambiental como aliada.
Agrônomo graduado pela Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz), da USP (Universidade de São Paulo), Cornacchioni tem experiência há 27 anos nas áreas de papel e celulose, florestas plantadas e no setor sucroalcooleiro, de derivados da cana-de-açúcar. Antes da Abag, foi diretor-executivo da Abraf (Associação Brasileira de Produtores de Florestas Plantadas) e teve postos executivos na Terracal Alimentos e Bioenergia e na Suzano Papel e Celulose, uma das maiores empresas do agronegócio no país e líder mundial no mercado de papel. Além de acumular funções no setor produtivo, Cornacchioni é líder da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, movimento de entidades do agronegócio, cientistas e organizações da área de meio ambiente que trata de questões associadas à mudança climática, propondo o desmatamento zero e a adoção de uma agricultura de baixo carbono.
Um dos maiores setores na economia e exportações brasileiras, o agronegócio, representado pela chamada bancada do boi, muitas vezes aparece como antagonista do meio ambiente no Brasil — ruralistas que apoiam o presidente Jair Bolsonaro (PSL) propõem a flexibilização de normas ambientais e revogação de áreas protegidas, por exemplo. 2,27 bi de toneladas de gás carbônico foram emitidas em 2016 pela agropecuária 7.900 km² de área da Amazônia foram suprimidos entre 2017 e 2018 80% da expansão das áreas cultivadas no Brasil entre 2000 e 2014 se deu sobre áreas de pastagens já desmatadas; agricultura de alta produtividade não está entre atividades mais predatórias, ao contrário da pecuária extensiva, grilagem e extração ilegal de madeira.
Ao comentar propostas como a extinção de reservas legais, levantada no Senado, e demandas de representantes do agronegócio para revogação de unidades de conservação, Cornacchioni afirma que são “retrocessos” e não falam por todo o setor, nem mesmo pelas principais lideranças — que, pensando nas exportações, veem a sustentabilidade tanto quanto necessidade da atividade quanto como valor de mercado. 
A adoção de tecnologias para a agricultura de baixo carbono, uma das principais propostas da Coalizão de que faz parte, tem o apoio da ministra da Agricultura, a pecuarista Tereza Cristina (DEM-MT), que ele considera “craque”, com experiência no setor e “visão estratégica” como governante para passar a valorizar os ativos ambientais brasileiros. “Não dá para negar que estamos vivendo a mudança climática”, diz o agrônomo, que diz se preocupar com os impactos do aquecimento global não apenas para a atividade agropecuária, que depende da disponibilidade de recursos naturais, mas para a vida — tanto na cidade como no campo — das próximas gerações, como seus filhos e netos. Como tem acontecido o diálogo entre ambientalistas e o agronegócio, dentro da organização de que participa?
LUIZ CORNACCHIONI  Acontece de maneira bastante positiva. Desde que a coalizão começou, em 2014, os resultados que tivemos com a contribuições para as NDCs [Contribuições Nacionalmente Determinadas, em português, que se referem às propostas que o Brasil fez no Acordo de Paris, em 2015, para combater a crise do clima] foi interessante, mostrando que conseguimos pensar estratégias efetivas. Outro ponto que vejo como positivo na coalizão é a evolução, o amadurecimento de nosso diálogo interno. Desde 2018, criamos a liderança compartilhada, dividindo os líderes do movimento entre um representante do agronegócio e outro, do setor ambiental. Por enquanto, sou eu, pela Associação Brasileira do Agronegócio, e o André Guimarães, pelo Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia). Por último, criamos a Visão 2030-2050, um documento que mostra como a coalizão pensa a agricultura e as florestas brasileiras para as próximas décadas. 
Foi um trabalho intenso, feito a quase 200 mãos. Esse texto se divide em quatro grandes eixos. Primeiro, tratamos do uso da terra, propondo ações para o desmatamento, por exemplo.  Segundo, falamos da agricultura e economia de baixo carbono. Falamos também do usos alternativos das florestas — usos racionais para o potencial florestal, além de tratarmos, principalmente, do pagamento de serviços ambientais [para quem preserva vegetação nativa]. Por último, tratamos da valorização econômica dessa sustentabilidade, com foco na economia de baixo carbono, que passa pelo uso de biocombustíveis, biodiesel, etanol e biometano, entre outras alternativas.
Como é a agricultura de baixo carbono proposta pelo grupo?
LUIZ CORNACCHIONI  Ela se baseia no melhor aproveitamento da terra, com o menor impacto possível. Ela envolve, por exemplo, o uso de tecnologias mais modernas para o preparo do solo, o que leva ao aproveitamento de seus nutrientes e da defesa vegetal. Além disso, onde há irrigação, propõe-se fazer a irrigação mais direcionada possível, para que se usem menos recursos hídricos. Esse modelo também busca melhorar a conservação de solo, para evitar perda de água e de nutrientes. É uma agricultura que, no geral, melhora a capacidade do solo — algo que, além de provocar menos emissões [de gás carbônico], poupa o uso de outros recursos para tornar a terra mais produtiva. A discussão sobre modelos alternativos não vem de agora, mas desde o início do debate sobre a mudança climática. Vale dizer que a agricultura de baixo carbono não se contrapõe à produtividade agrícola. A curva de produtividade da soja, por exemplo, foi cerca de quatro vezes maior que a curva de uso da área [agrícola] no Brasil nos últimos anos. É um exemplo direto de que o ganho de produtividade pode se relacionar com o aproveitamento da capacidade do solo, e não necessariamente com a expansão de área de cultivo. A agricultura de baixo carbono envolve também o aproveitamento de tecnologias, como a melhoria de material genético, melhoria de manejo do cultivo. Isso tem muito retorno, principalmente para o produtor, que pode reduzir seus custos de produção em terras mais produtivas.
O que o senhor espera da atuação da ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, a pecuarista Tereza Cristina?
LUIZ CORNACCHIONI  Acredito que será uma gestão das melhores possíveis. A ministra é produtora rural, produtora agropecuária, tem experiência. No Mato Grosso, passou pelo Executivo, como secretária estadual, foi — e é — deputada, conhecendo o Legislativo, e esteve na Federação da Agricultura do estado. Ela tem todas as condições, tanto por seu conhecimento quanto por sua visão de futuro, de fazer uma gestão excepcional. Ela sabe compreender o que é importante. A coalizão apresentou à ministra, há cerca de três semanas, a Visão 2030-2050, e falamos sobre agricultura de baixo carbono, pagamento por serviços ambientais, entre outros temas envolvendo o setor. Ela compartilha da nossa visão. Um dos principais pontos que discutimos foi a necessidade de pararmos de usar nossos ativos ambientais apenas a efeito de comparação [com os outros países, de modo a “proteger” o Brasil de críticas no setor] e transformá-los de fato em vantagens competitivas, valorizando-os em prol do produtor rural. A ministra entendeu esse tipo de estratégia. Nós vamos caminhar junto do ministério nos pontos em que temos convergência de ideias e de ações.
O sr. não vê possível conflito de interesses em casos como a demarcação de terras indígenas passada à pasta da Agricultura? 
LUIZ CORNACCHIONI Não sou especialista nesse tema, mas não vejo conflito de interesses. Acredito que a ministra sabe separar possíveis interesses que compartilha com o setor [agropecuário] de sua missão institucional. É preciso cobrar, sim, que o órgão tenha instituições fortes, com uma tradição de ética e gestão consolidada, que seja imune a eventuais vontades e manobras de seus dirigentes. Acredito que esse é o caso da Tereza Cristina e do Ministério da Agricultura. Se isso não acontecer, e se, no futuro, eu perceber que não foi esse o caso na demarcação de terras indígenas na pasta da agricultura, vou ter que te ligar de novo e pedir desculpas pela minha posição. No senso comum, o agronegócio é visto como antagonista do meio ambiente. Ao mesmo tempo,representantes do setor dizem que a agropecuária faz muito pela proteção ambiental.
De onde vem essa contradição de discursos?
LUIZ CORNACCHIONI A questão do antagonismo não está 100% superada. Mas vejo que o setor tem evoluído muito nisso. Ainda que esse discurso não seja unânime, boa parte do agronegócio entende a importância de se trabalhar unindo produção agropecuária e conservação ambiental. Isso mesmo entre partes, representantes, líderes do setor no Brasil. Acredito que essa antagonismo [com o meio ambiente] está menor que antes — e que, logicamente, essa tendência diminua cada vez mais. Não dá para não dizer, além disso, que boa parte [20,5%] das áreas de preservação ambiental estão hoje nas propriedades rurais privadas, por meio das reservas legais [áreas de preservação definidas pelo Código Florestal e obrigatórias em qualquer propriedade rural no Brasil]. Essas áreas também estão [13%] nas terras públicas — por exemplo, as unidades de conservação —, mas o setor privado também faz sua parte. Por causa do Código Florestal, é responsabilidade do produtor rural manter e cuidar de uma série de áreas de vegetação nativa no país. É uma contribuição importante — e por isso mencionei, no início da conversa, a importância de melhorar os mecanismos de pagamento por serviços ambientais, para criar incentivos para a preservação, e deixar menor esse peso da preservação sobre as costas dos produtores. Ainda assim, não vamos esquecer também que o produtor — boa parte dos produtores — entende que manter áreas de preservação ambiental em sua propriedade é um ativo importante para ele. Com recursos hídricos melhores, com biodiversidade [nas áreas preservadas], a produção agropecuária é melhor, em quantidade e em qualidade — com inimigos naturais, é possível combater pragas e doenças sem necessidade de uso de outros recursos de defesa vegetal, por exemplo. Há mais falácia do que verdade nesse antagonismo do agronegócio. Em abril de 2019, mais de 600 cientistas denunciaram o Brasil por “exportar desmatamento” em commodities, incluindo alimentos. A agropecuária tem as maiores emissões de gases do efeito estufa no país. 
Como o setor pode contribuir para a discussão?
LUIZ CORNACCHIONI  A agropecuária tem impacto ambiental, como qualquer atividade humana. É verdade que algumas atividades têm mais impacto, enquanto outras têm menos. No momento, o que procuramos fazer [no setor] para superar isso [a emissão da agropecuária de gás carbônico e do efeito estufa] é aplicar tecnologias cada vez menos impactantes e com menor quantidade de emissão, como eu disse, para reduzir nosso peso no impacto. Para compensar esse impacto, voltamos às áreas de conservação nas propriedades — que, por terem mais vegetação, contrapesam as emissões.  Não vou entrar no mérito de discutir se a denúncia da carta [de cientistas] foi exagerada, porque não sou cientista para falar isso. Mas, sem dúvida, é importante entender que há um recado nessa mensagem. A sustentabilidade passou a ter valor de mercado, e consumidores — tanto do mercado externo quanto do mercado interno — vão passar cada vez mais a exigir de nós [do setor] que façamos nossa parte. É uma questão pragmática, que se relaciona com nossas exportações, com a competitividade do agronegócio brasileiro no cenário externo.
Quais são as demandas do agronegócio, na sua opinião?
LUIZ CORNACCHIONI  Eu prefiro falar do que discutimos internamente na associação. Aqui, reunimos os aspectos mais importantes em quatro eixos. Primeiro, a sustentabilidade. Se a tirarmos da equação, a conta não fecha. Segundo, inovação e tecnologia — algo que tem relação com ganhos de produtividade, como eu já disse. Terceiro, temos como necessidade melhorar, enquanto país, nossa infraestrutura e conectividade — algo que tem muito impacto sobre o agronegócio por causa da dispersão de nossas terras, mas que afeta todos os setores da economia. Ainda no estado de São Paulo, que é o mais desenvolvido do Brasil, não se consegue fazer uma viagem longa sem o sinal de celular cair umas três vezes. Imagine então como é a situação nos rincões do país, onde não só essa conectividade, mas as próprias estradas têm diversos problemas. O quarto ponto se refere à necessidade de se aumentar e diversificar os recursos financeiros para o agronegócio. Nós vamos ter cada vez mais que fazer uso do mercado financeiro e do mercado de capitais — mesmo porque estamos em uma transição [no país] para uma economia mais liberal. Vamos ter que nos adaptar. 
Como o sr. avalia ideias como o projeto de lei que busca acabar com áreas de preservação em imóveis rurais, ou propostas de alguns representantes do setor de revogar a proteção sobre unidades de conservação? Essas demandas falam pelo setor?
LUIZ CORNACCHIONI  Não, nenhuma, não falam por unanimidade do setor. Mexer no Código Florestal é um retrocesso. A discussão até esse código virar lei foi intensa — na sociedade, no Congresso, com todos os setores envolvidos, passou por diversas comissões na Câmara. Não é uma lei perfeita — nem era a intenção que fosse —, mas é um código bem moderno diante do que tínhamos antes e comparado com a legislação de outros países. Esse é o primeiro motivo pelo qual não vejo razão em mexer. Mas, além disso, nós assumimos um compromisso. Não está certo, em benefício de alguns [ruralistas], prejudicar os bons produtores rurais, que implementam as regras do Código Florestal. Mais de 4,3 milhões de produtores aderiram ao Cadastro Ambiental [registro federal de bases de dados para regularizar propriedades rurais usado para a formulação de políticas públicas na área]. Mudar as regras no meio do jogo — que, aliás, está estabelecido — passa um sinal muito ruim, tanto no mercado interno quanto no externo. Essa é a questão. Temos que implementar o código, e não mudá-lo. Há coisas muito mais importantes a se fazer do que voltar para trás e discutir reserva legal. Não sei se temos muitas ou poucas unidades de conservação, porque não sou especialista nessa área. É importante, claro, que essas áreas cumpram com os objetivos para os quais elas foram criadas. Se as unidades cumprem com seu objetivo, se esse papel está sendo feito, não há por que reduzir por reduzir. Dez unidades são muitas, 20 são muitas, 1.000 são muitas? Qual o parâmetro? Acredito que devemos fazer uma análise técnica dessas áreas. Não é com o fígado que resolvemos uma coisa da importância que é a unidade de conservação, principalmente quando entendemos seu papel para a biodiversidade. 
Como a mudança climática deve ser tratada pelo agronegócio?
LUIZ CORNACCHIONI  Não dá para negar que estamos vivendo uma alteração climática. Tanto quem mora na cidade quanto quem mora no campo percebe isso. Uma atividade como a agropecuária tem necessidade de recursos naturais — portanto, qualquer alteração ambiental, sem dúvida, tem impacto sobre a produção. Se há uma alteração de regime hídrico, há impacto. Se há uma mudança drástica de temperatura, mesma coisa. Esse impacto pode ser mais ou menos intenso a depender do tipo de cultura ou da produção animal, ou a depender da região em que se está. Mas o impacto é sempre direto. A agropecuária perde performance com alterações ambientais duras. As lideranças do agronegócio não têm dúvida disso. Acredito que o setor encara o tema com seriedade. O agronegócio participou da discussão das Contribuições Nacionalmente Determinadas brasileiras, ainda mais do Código Florestal. Um dos resultados desses debates foi justamente a criação da Coalizão Brasil, Clima e Florestas, que surgiu pouco antes do Acordo de Paris. Esse acordo saiu da França, veio ao Congresso Nacional, foi votado — é claro que ainda há pontos a se discutir, porque nem tudo está fechado. Agora não dá para dizer que não tem acordo, como eu já disse. Não dá para dizer que não temos que cumprir com esses compromissos. Até pode dizer que não temos mais compromissos? Pode. Mas vai ser bacana? Não. Vai nos prejudicar sob o ponto de vista de imagem e de mercado? Muito. Principalmente nos índices de exportações brasileiros, sobretudo com alguns países, que têm isso [a sustentabilidade, as ações pelo clima] quase como uma regra para comprar produto. Não dá para a gente sair rasgando acordo como se rasga um guardanapo. 
Como qualificar o debate sobre o uso da terra no Brasil?
LUIZ CORNACCHIONI  O uso da terra no Brasil é importantíssimo. Primeiro porque temos um país de dimensões continentais, com vários tipos de biomas. Além disso, temos diferentes densidades demográficas em cada região. É uma discussão complexa, não apenas no setor agrícola e pecuário, mas na zona urbana — que, aliás, tem muito mais uso e ocupação de terras que no setor rural. Mas é claro que, no setor agrícola, trata-se de uma discussão importante — é preciso discutir usos, zoneamento, conflitos pela terra. São ativos importantes.