Se o mundo consumisse como a União Europeia, precisaríamos de quase três planetas, diz estudo

Publicado em 14/05/2019 por G1 Natureza

Há cerca de um mês, o maior partido do parlamento norueguês chocou a indústria petrolífera do país, depois de retirar o apoio à perfuração exploratória das ilhas Lofoten, no Ártico, considerada uma maravilha natural.Ambientalistas globais comemoraram, já que a atitude parece abrir um precedente de “bom comportamento” com relação às mudanças de paradigma necessárias para fortalecer o meio ambiente e tentar parar o avanço contra os bens naturais.

No entanto, a pergunta que muitos se fizeram foi: será que a Noruega está assumindo tal preocupação também nos países onde ela tem atividades industriais?

Esta é a questão que caracteriza nossos dias atuais, em que há uma real preocupação com a distância entre discurso e gesto quando o tema gira em torno dos cuidados ao meio ambiente. Hoje mesmo pensei a respeito quando li, em reportagem do “The Guardian”, que a União Europeia já ultrapassou todos os limites possíveis no uso dos bens naturais. Se todo o resto do mundo consumisse tanto quanto os europeus, diz o estudo, a capacidade de o planeta se restabelecer durante o ano terminaria hoje (10).

De acordo com os dados coletados pelo WWF e pela organização Global Footprint Network, divulgados ontem, serão necessários 2,8 planetas para estender a taxa de consumo de combustíveis, alimentos, fibras, terra e madeira da UE a todas as pessoas do mundo caso seguíssemos o padrão europeu de consumo. O estudo foi feito na esteira da advertência mais recente que a ONU fez quando divulgou relatório onde consta o risco de extinção de um milhão de espécies. Sim, mais do que nunca estamos vivendo uma era em que todos os fenômenos estão interligados. E em que as atitudes precisam ser verdadeiras e gerar algum resultado.

É, também, uma era de incertezas para os cidadãos comuns que querem se informar sobre as questões globais relacionadas ao meio ambiente. A cada reunião, a cada encontro, os líderes e empresários mundiais fazem promessas que só serão capazes de cumprir se fizerem sucessores com as mesmas linhas de conduta. Aqui no Brasil, por exemplo, estamos assistindo a uma política ambiental que põe em xeque diversas instituições que sempre foram consideradas sérias e competentes, entre elas o ICMBio e o Ibama. Em entrevista à jornalista Daniela Chiaretti, do jornal “Valor Econômico”, o ministro Ricardo Salles, do meio ambiente, afirma que todas estavam em péssima situação. Na visão dele, “É verdade que a floresta vale mais em pé do que deitada, mas desde que com mecanismos para gerar riqueza”, o que confirma o que já sabíamos desde a campanha: a ótica do novo governo é mais econômica do que ambiental.

O que vale a pena lembrar aqui é que em 2015, quando a então presidente Dilma Roussef esteve na ONU defendendo o Acordo de Paris, há três anos, anunciou que o Brasil teria 37% de redução dos gases de efeito estufa até 2025, além da meta de redução de 43% até 2030 – tomando 2005 como ano-base, em ambos os casos. Com uma visão de sorver o quanto der de riqueza em bens naturais, sabemos que esta meta, se ainda é considerada, dificilmente será alcançada.

Vale a pena lembrar também, agora já falando sobre o relatório do WWF lançado ontem, que em 2015, quando foi assinado o Acordo de Pais, a União Europeia se comprometeu a diminuir a emissão de gases de efeito estufa em, pelo menos, 40% abaixo dos níveis de 1990, até 2030. Com o resultado do estudo da WWF, o que se percebe é que lá também, pelo visto, os líderes europeus se esqueceram de combinar com o setor industrial e com os cidadãos comuns. Em ambos os casos, o que assistimos é a uma sequência de retórica inútil, de boas intenções que precisam muito mais para darem bons resultados.

Se a União Europeia fosse um país, diz o estudo, teria a terceira maior pegada ecológica do mundo, atrás somente dos Estados Unidos e da China. Enquanto a Europa representa apenas 7% da população mundial, ela explora um quinto de sua biocapacidade, principalmente por meio de emissões de gases do efeito estufa, um fenômeno chamado de Overshoot, quando se ultrapassa um ponto pretendido.

Para Ester Asin, diretor do escritório europeu de políticas da WWF, “Esta situação da União Europeia é um forte lembrete de que seu consumo está contribuindo para o iminente colapso ecológico e climático da Terra”.

“Isto não é apenas irresponsável, é perigoso. É necessária uma ação urgente, e os líderes da União Europeia devem reunir a vontade política para tratar esta situação como uma emergência e nos colocar no caminho de um futuro sustentável para a Europa”, disse Asin.

É mais ou menos como se a União Europeia estivesse se endividando, pegando bens da natureza que só estariam disponíveis daqui um ano, para usá-los agora. É uma escolha extremamente arriscada, advertem os ambientalistas.

As datas de overshoot são calculadas pela média da pegada ecológica dos cidadãos em cada país e comparando-a com a “biocapacidade” anual da Terra para restaurar sua riqueza natural esgotada. Levando em conta este estudo, em 1961, a Europa conseguiu viver de forma sustentável até 13 de outubro. Já os países com baixas emissões, como Cuba, Marrocos ou Nigéria, conseguem levar um ano inteiro sem precisar “pedir emprestado” nenhuma dose extra de carbono.

A importação de produtos como óleo de palma, soja, cacau e borracha de partes desmatadas da América Latina, África e Ásia também tem forte impacto sobre a biodiversidade e a natureza, lembra o estudo. Óleo de palma, como se sabe, é um produto usado largamente pela indústria alimentícia e pelos cosméticos que tem sido acusado de desmatar florestas. Soja, cacau e borracha também são produtos que estão em toda parte no cotidiano dos cidadãos comuns.

Sendo assim, uma conclusão possível – e recorrente - é que o colapso ambiental pode ser minimizado se tivermos um olhar mais cuidadoso para o que consumimos. É um desafio, portanto, para líderes e para os cidadãos comuns. Vamos conseguir?

Na próxima quinta-feira (16) haverá um encontro na União Europeia que está sendo convocado por Noruega, França, Espanha, Portugal, Bélgica e Luxemburgo. Mais uma vez o desafio de coordenar a transição para uma economia de baixo carbono vai ser posto na mesa de debates. Mas, se não tiver apoio de pesos pesados, como Itália, Alemanha e Polônia, será mais uma inútil discussão. De qualquer forma, porém, vamos noticiar as promessas.

A cada reunião dessas, há mais informações de alto nível coletadas por instituições da sociedade civil. Este serviço é crucial para, pelo menos, manter vivo o debate. E para que as informações circulem. Mesmo à parte das decisões globais, o cidadão comum merece saber que precisa tomar suas próprias decisões.