Dólar avança com pressão em commodities; Ibovespa sobe com exterior

Publicado em 26/11/2018 por Valor Online

SÃO PAULO  -  A escalada do dólar se estende pela quinta sessão consecutiva, deixando a cotação cada vez mais próxima da marca de R$ 3,90. Numa época do ano que é marcada por remessas ao exterior e fluxo de saída de recursos, o mercado brasileiro de câmbio também tem sido afetado pela instabilidade nos preços das commodities num movimento bastante desfavorável ao real.

Desta vez, é a firme queda do minério de ferro que pressiona o câmbio local, já que o Brasil é um dos principais exportadores da commodity no mundo. De acordo com a "Metal Bulletin", a tonelada do minério com pureza média de 62% com entrega no porto de Qingdao recuou US$ 5,88, ou 8,4% hoje, para US$ 74,25 por tonelada, dando sequência às chamadas "vendas de pânico" que derrubam as cotações desde a semana passada.

A turbulência no mercado de commodities, que também tem afetado os preços do petróleo nos últimos dias, chega num momento que o mercado brasileiro já é marcado por saída de recursos. Muitas empresas enviam capital para o exterior para fechamento de balanços ou pagamentos de dividendos, entre outras operações.

Todo isso encarece o valor do dólar no Brasil, aumentando a ansiedade com a atuação do Banco Central (BC) neste fim de ano. Muitos gestores esperam que a autoridade monetária faça a rolagem de uma operação de linha - venda com compromisso de recompra - de US$ 1,25 bilhão no começo de dezembro e até ofereça algo a mais para aliviar a demanda no mercado.

Por volta das 13h50, o dólar comercial subia 1,65%, a R$ 3,8845, depois de tocar R$ 3,8945 na máxima do dia, maior nível desde 4 de outubro, quando atingiu R$ 3,9349. Com esse salto do dólar, o mercado brasileiro de câmbio tinha a pior colocação numa lista das 33 principais divisas globais, com variação bem mais intensa que o peso argentino (-1,08%) e o rublo russo (-0,76%).

"Dentro as moedas de emergentes, o real e o rublo estão com um movimento parecido. As outras divisas parecem estar se beneficiando mais da recuperação do petróleo do que nós", diz o operador de uma corretora paulista. Para ele, a recuperação do petróleo hoje é mais técnica do que uma tendência. "A Opep só se reúne no começo de dezembro, então não dá para criar expectativas por enquanto", acrescenta.

O diretor da Wagner Investimentos, José Faria Junior, aponta que o mercado local de câmbio continua a ter fluxo negativo, tradicional neste período do ano. Já a redução da projeção da Selic no Focus para o próximo ano - e a queda dos juros de curto prazo - deixa cada vez mais atrativo o hedge de compra de dólar, que pode ser feito para 1 ano com custo (considerando apenas o diferencial de juros) abaixo da inflação.

Bolsa

A maior tranquilidade dos mercados acionários globais, com as principais bolsas do mundo operando em alta, ajuda o Ibovespa a sustentar desempenho positivo desde o início da sessão. No entanto, a queda firma dos papéis da Vale, em meio à desvalorização expressiva do minério de ferro, impede uma recuperação mais ampla do índice, mantendo-o na faixa de 86 mil pontos.

Às 13h50, o Ibovespa avançava 0,58%, aos 86.789 pontos, após chegar a subir 1,06% no melhor momento do dia, aos 87.147 pontos. O giro financeiro projetado para o índice ao fim do dia é de pouco mais de R$ 9 bilhões, considerando o volume movimentado até o momento, de R$ 4,7 bilhões.

No exterior, o clima é de recuperação. As bolsas europeias avançam em bloco, com os investidores mostrando alívio em relação ao avanço nos entendimentos do Brexit no fim de semana. Nos Estados Unidos, o Dow Jones, o Nasdaq e o S&P 500 subiam mais de 1%, o que também dá força ao Ibovespa.

Destaque, ainda, para o petróleo. Após as fortes quedas da semana passada, a commodity iniciou esta semana com ganhos. Nesse contexto, Petrobras PN (1,68%) e Petrobras ON (1,65%) opervaam em alta e lideram os ganhos entre as "blue chips".

Para Vitor Suzaki, analista da Lerosa Investimentos, o tom das negociações no exterior tende a determinar o comportamento do Ibovespa na sessão de hoje, uma vez que o fim de semana não trouxe grandes novidades no front político brasileiro.

Vale ON (-1,05%) apresenta desempenho negativo desde o início do dia, reagindo à forte queda de 8,4% do minério de ferro no porto chinês de Qingdao, a US$ 64,25 a tonelada. Para Suzaki, a commodity segue sendo pressionada pela incerteza quanto aos impactos que as disputas comerciais travadas entre os governos americano e chinês trarão à economia do gigante asiático. "Não é nada relacionado aos fundamentos do setor de mineração", diz.

Ainda entre as "blue chips", os bancos apresentam desempenho ligeiramente positivo, embora afastado das máximas. Banco do Brasil ON subia 0,16%, seguido por Bradesco PN (0,33%) e Itaú PN (+0,03%) - as units do Santander Brasil, por outro lado, cediam 1,63%.

Na ponta positiva do índice, JBS ON (+4,05%) liderava os ganhos do Ibovespa, seguido por Via Varejo ON (+6,06%) - a empresa concluiu hoje a migração para o Novo Mercado da B3.

Juros

Os contratos de juros futuros passam por ajuste e registram forte alta na B3, seguindo o movimento de valorização do dólar frente ao real. E a alta nas taxas é mais intensa nos prazos mais longos.

Às 13h50, o DI janeiro/2020 era negociado a 6,95% (6,91%% no ajuste anterior). O DI janeiro/2021 tinha taxa de 7,91% (7,86% no ajuste anterior) e o DI janeiro/2025 marcava 9,61% (9,51% no ajuste anterior).

Parte do movimento é influência do câmbio e parte é ajuste sobre a tendência da última semana, que foi marcada pela baixa liquidez e recuo nos juros de longo prazo. Para se ter ideia, o DI com vencimento em janeiro de 2021 voltou na sexta-feira para o patamar mais baixo do ano e o DI janeiro de 2025 voltou para níveis de fim de março.

Além disso, conforme explica Matheus Gallina, operador de renda fixa Quantitas, a agenda da semana está intensa e traz cautela para o investidor local. Ele destaca o encontro da cúpula do G-20, que reunirá o presidente americano Donald Trump e o chinês XI Jinping e pode dar seguimento à disputa comercial, e os discursos dos integrantes do Federal Reserve (Fed, banco central americano) com possíveis indicações das perspectivas para 2019.

Conforme destaca a Guide Investimentos em relatório, a guerra comercial China-EUA tem sido um dos grandes epicentros de geração de tensões nos mercados internacionais e, portanto, qualquer sinalização positiva que saia deste encontro pode ser suficiente para acalmar e muito os mercados.

No cenário local, os investidores seguem acompanhando a formação da equipe de governo de Jair Bolsonaro e a articulação com o Congresso Nacional. O time de ministros vem sendo montada sem articulação partidária e preocupa no sentido de que esse movimento pode gerar problemas na hora de buscar apoio para votações de medidas que precisam de maioria qualificada na Câmara e no Senado.