Perfil dos trabalhadores de outros países muda na crise

Publicado em 15/01/2018 por DCI

A vinda dos funcionários estrangeiros de multinacionais para São Paulo perdeu força durante a recessão, enquanto cresceu a chegada de trabalhadores que fogem de países em crise, como Venezuela e Haiti.

"Por causa dos problemas econômicos, várias empresas internacionais suspenderam ou cancelaram projetos no Brasil. Com isso, a vinda de funcionários de países mais ricos diminuiu", diz João Marques, presidente da Emdoc, consultoria especializada em imigração.

Em 2016, o Ministério do Trabalho concedeu 11.343 permissões de emprego para estrangeiros no Estado de São Paulo, menos que a metade dos números vistos no começo da década. Em 2011, por exemplo, 33.011 autorizações de trabalho foram entregues para imigrantes em território paulista.

Países europeus, como Reino Unido, Itália e Espanha, estão entre os que mais reduziram o envio de funcionários para o Brasil nos últimos anos, de acordo com os dados do Ministério do Trabalho. Estados Unidos, China, Japão e Coreia do Sul também apareceram na lista.

Por outro lado, cresceu o número de trabalhadores vindos de países afetados por guerras, crises econômicas e humanitárias. Segundo o último Relatório Anual sobre inserção de imigrantes no quadro de emprego brasileiro, divulgado pelo governo no final do ano passado, os haitianos eram "pouco mais de algumas centenas de imigrantes", em 2011, e passaram a ser "a principal nacionalidade no mercado de trabalho formal no Brasil" durante os últimos anos.

O documento também indica que senegaleses e venezuelanos "têm ocupado um lugar expressivo na empregabilidade dos imigrantes no País."

Pesquisadora do Museu da Imigração, Angélica Beghini afirma que boa parte dos imigrantes que chegaram a São Paulo durante a crise está fora do mercado formal. "Não há um levantamento com um número preciso, mas vemos haitianos, por exemplo, em postos informais de diversos setores, como construção civil, abate de animais e produção de bens industriais", diz.

A especialista afirma também que muitos desses imigrantes não estão encontrando cargos compatíveis com seus níveis de instrução. "Como a recessão prejudicou a demanda por mão de obra mais qualificada, parte dos estrangeiros está ocupando cargos mais simples". Segundo ela, o preconceito e as diferenças culturais também reduzem as chances dos trabalhadores de outros países em São Paulo.

Entretanto, os entrevistados afirmam que a situação pode melhorar nos próximos anos. "Com o começo da recuperação econômica, já é possível perceber um aumento das consultas de empresas estrangeiras que pretendem investir no Brasil", diz Marques, da Emdoc. "Se os problemas políticos não atrapalharem mais, a situação dos imigrantes deve começar a melhorar em breve", indica ele.