Planalto já vê 2º turno com Bolsonaro e o PT

Publicado em 22/08/2018 por Valor Online

Planalto já vê 2º turno com Bolsonaro e o PT

Um confronto entre o candidato do PT apoiado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o deputado federal Jair Bolsonaro (PSL) é hoje o cenário tido no Palácio do Planalto como mais provável para o segundo turno das eleições.

Até um mês atrás, auxiliares próximos de Temer apostavam na "desidratação" de Bolsonaro - termo usado pelo chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha, em entrevista dada ao Valor em julho. Esperavam o crescimento do candidato ungido pelo Centrão, que dias depois fechou com o tucano Geraldo Alckmin, e o nome de Lula. A última rodada de pesquisas mudou a percepção da cúpula governista.

A dificuldade do ex-governador de São Paulo de transformar apoio político em votos diminuiu a crença do Planalto em vê-lo no segundo turno. Para um dos principais interlocutores de Temer, falta para Alckmin "capacidade de comunicação". Ele não teria encontrado, até agora, uma forma de dialogar com a sociedade e não seria o início do horário eleitoral um fator a mudar substancialmente o andamento da campanha. Até porque será uma campanha com menos TV e mais redes sociais.

Cúpula do governo se desanima com as chances de Alckmin

De acordo com a visão predominante no Planalto, Bolsonaro não perdeu o fôlego imaginado. Seria um reflexo de participações sem grandes tropeços nos programas de televisão e debates com presidenciáveis. Além disso, chamam a atenção dos assessores de Temer o poder do ex-capitão do Exército na internet e como ele tem conseguido sustentar um discurso de que representa o "novo" na política, apesar dos sete mandatos como deputado.

A expectativa, no núcleo político do governo, é de uma decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre Lula no início de setembro. Espera-se o banimento do petista e sua substituição pelo ex-prefeito Fernando Haddad. "É tempo suficiente para erguer o poste", diz o confidente de Temer. Para ele, Haddad não ficaria perto dos 37% das intenções de voto em Lula. Mas teria o necessário, na faixa de 20%, para garantir presença no segundo turno em uma eleição tão pulverizada.

Questionado sobre as declarações do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que não descartou eventual união de partidos contra Bolsonaro e o radicalismo de direita, esse assessor presidencial foi bem mais comedido. E frisou: "Também existe o radicalismo do PT".

Ou seja: esqueça-se, em sua análise, a repetição tropical de eleições francesas em que rivais se aliaram para formar um "cordão sanitário" contra a xenofobia da família Le Pen - Jean-Marie em 2002 e Marine em 2017. Aqui, esse tipo de união deve ser mais difícil, pelos traumas do passado recente.

Se esse cenário desenhado hoje no Planalto se confirmar, com Bolsonaro e Haddad no segundo turno, sabe-se que a transição para o novo governo não será fácil. Pode haver fricções na passagem de bastão. Há razões para preocupação, por exemplo, com o diálogo entre as equipes atuais e as indicadas pelo presidente eleito em outubro.

Guerra nas redes sociais

Está aberta a temporada de bate-boca nas redes sociais e amizades desfeitas com um clique no mundo digital por causa dos intolerantes de plantão, quando o assunto é política e eleições presidenciais.

A tia chata que a gente só vê no Natal compartilhou vídeo do Bolsonaro afirmando que livros didáticos estão ensinando sexo para crianças de seis anos? Exclui da timeline. O amigo playboy acha que Bolsa Família é prêmio para vagabundo? Boceja e tira dos contatos. A prima esquerdista posta que Sergio Moro age sob instruções da CIA e chama impeachment de golpe? Ah, que saco! Apaga da lista de amigos.

Não é apenas o potencial destrutivo das "fake news" que assusta nestas eleições. O povo que se imaginava cordial agora liberta seus instintos primitivos no Facebook e nos grupos de WhatsApp, mas contraria um pedaço de sua essência. Quem já sentou à mesa do bar com estrangeiros sabe: discussões sobre assuntos polêmicos podem ser ríspidas e gerar enfrentamentos sem que haja abalo às relações.

O brasileiro é diferente. Em geral, evita bola dividida. Aprende desde cedo que futebol, política e religião não se discutem. Discordâncias frontais causam constrangimento e esfriam amizades. É normal recorrer a uma válvula de escape para fugir de incômodos. Pode ser uma piada ou fofoca de trabalho. Troca-se a tensão por um sorriso. É o nosso jeito.

As redes sociais subvertem esse hábito. Longe do olho no olho, com o conforto de criticar sem ouvir o contraditório e restringindo os grupos aos quais pertencemos, a sensação é de carta branca para agressões.

Pois o festival de ofensas on-line em tempo de eleições traz uma oportunidade para repensar se o perfil no Facebook ou a conta no Instagram vale mesmo a pena. Em caso de dúvida, leia-se o que diz o britânico Robin Dunbar, professor de psicologia da evolução e especialista em comportamento de primatas na Universidade de Oxford.

Em seus estudos, ele aponta que há um número limitado de indivíduos com quem humanos ou chimpanzés conseguem estabelecer relacionamento regular. No caso de homens ou mulheres, gira em torno de 150. Essa é a quantidade de pessoas que poderiam, digamos, ir ao seu casamento ou ao seu enterro. A partir daí, existe uma escala mental de três para baixo e três para cima.

Para baixo: o grupo inicial de 150 relacionamentos se reduz para 50 pessoas do convívio próximo, 15 bons amigos, cinco dos quais fazem parte de um núcleo mais restrito. E um ou dois confidentes em grau máximo.

Para cima: podemos expandir o círculo de 150 para uns 500 "conhecidos" e até 1.500 pessoas de quem não sabemos quase nada, mas cujos nomes nos damos conta de lembrar. Mais do que isso, nem adianta. O nosso cérebro não consegue processar.

A conclusão de Dunbar é que as redes sociais não aumentam nem reduzem a nossa quantidade de relacionamentos, mas dificultam a troca de personagens. Se passamos muitos anos sem ver alguém, a tendência é que essa pessoa caia na escala de três para cima e três para baixo. Mas se ela continua a nosso alcance, mesmo virtualmente, preencherá um espaço mental que poderia ser ocupado por novos indivíduos. A reciclagem de contatos, existente desde o início da civilização, tende a diminuir.

A conclusão da coluna é que se deveria gastar menos tempo vociferando nas redes e apostar em instigantes discussões políticas off-line, à mesa do bar.

Daniel Rittner é repórter especial. Hoje, excepcionalmente, deixamos de publicar a coluna de Cristiano Romero

E-mail: daniel.rittner@valor.com.br