Carioca será o primeiro rio a ser tombado do estado

Publicado em 14/01/2018 por O Globo

Uma piscina em pedra e concreto, no alto dos Guararapes, virou point para a garotada da comunidade do Cosme Velho. Os meninos do vizinho Morro dos Prazeres, em Santa Teresa, pegam carona na diversão, que inclui saltos precisos na direção do tanque, construído pelo programa Favela Bairro, da prefeitura, no início dos anos 2000. A água que garante o mergulho vem do Rio Carioca, que, naquele ponto, ainda tem uma aparência límpida, como na nascente dentro do Parque Nacional da Tijuca, um pouco acima das Paineiras.

Rio Carioca vai virar patrimônio do Rio

  • Pequeno, degradado, mas de grande importância histórica, ambiental e cultural, o Rio Carioca, considerado o primeiro provedor de água potável para o Rio de Janeiro, será também o rio percursor do estado a virar patrimônioFoto: Guito Moreto / Agência O Globo

  • A expectativa do presidente do Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac), Marcus Monteiro, é de concluir o processo de tombamento ainda este mêsFoto: Guito Moreto / Agência O Globo

  • Um passo para mudar o cenário foi dado. Há cerca de três meses tiveram início obras de revitalização e restauração da Caixa da Mãe Dágua e do Reservatório Carioca, de 1.744 e 1.865 respectivamente, no alto da Rua Almirante AlexandrinoFoto: Guito Moreto / Agência O Globo

  • Bens tombados pelo Inepac, estão desativados há décadas e em péssimo estado de conservação. As obras devem estar concluídas até o fim deste semestreFoto: Guito Moreto / Agência O Globo

  • Essa, no entanto, é a primeira fase de projeto mais amplo, de acordo com o idealizador, o deputado André Corrêa (DEM) quando secretário estadual do AmbienteFoto: Guito Moreto / Agência O Globo

  • Os recursos do Fundo Mata Atlântica, de compensação ambiental, somam R$ 10,3 milhões e contemplam, numa segunda etapa, levar a água do Guandu para moradores dos Guararapes e do Cosme Velho, hoje abastecidos pelo CariocaFoto: Guito Moreto / Agência O Globo

Com cerca de 5,6 quilômetros de extensão, segundo a Fundação Rio Águas, o Carioca serpenteia a céu aberto a Favela dos Guararapes, onde lixo e mata se acumulam, e passa encoberto por um trecho da comunidade da Vila Cândido. Da lá, segue seu curso pelo Cosme Velho, voltando a ficar visível no Largo do Boticário e no terminal de ônibus do bairro, envolto em grossas muralhas e já dando sinais de poluição. O rio percorre, então, submerso, uma densa área urbana até desaguar, turvo e malcheiroso, na Baía de Guanabara, na altura do Flamengo.

Pequeno, degradado, mas de grande importância histórica, ambiental e cultural, o Carioca, considerado o primeiro provedor de água potável do Rio, será precursor também ao virar patrimônio do estado. O presidente do Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac), Marcus Monteiro, espera concluir o processo de tombamento este mês.

- Com a medida, será possível cobrar, com mais vigor, sua despoluição e sua valorização em todos os sentidos - diz Marcus.

Um passo para mudar o cenário foi dado. Há três meses, começaram obras na Caixa da Mãe DÁgua e do Reservatório Carioca, de 1744 e 1865, respectivamente, no alto da Rua Almirante Alexandrino. Bens tombados pelo Inepac, estão desativados há décadas e malconservados. A restauração deve ser concluída este semestre. O projeto, porém, é mais amplo, conforme seu idealizador, o deputado André Corrêa (DEM), que foi secretário estadual do Ambiente. Com R$ 10,2 milhões em recursos do Fundo da Mata Atlântica, de compensação ambiental, ele prevê, numa segunda etapa, levar água do Guandu a comunidades do Cosme Velho, ainda abastecidas pelo Carioca. Essa obra deve terminar em 18 meses.

- Acabaremos com tudo que sangra o rio para aumentar sua vazão. Ele não vai mais servir para abastecimento - diz Corrêa.

Sem guardiões e com lixo

Líder comunitário que nasceu e mora nos Guararapes há 68 anos, Francisco da Silva, o Duca, conta que o Carioca já teve um volume de água muito maior:

- Ele precisa de paz, não pode mais servir para abastecimento.

Quanto ao lixo e ao mato que se incorporaram à paisagem do Carioca ao longo do Guararapes, Duca atribui o problema à falta de zelo de moradores e ao fim do projeto Guardiões de Rios, em agosto de 2016, após denúncias de irregularidades. Em abril do ano passado, a Secretaria municipal de Conservação e Meio Ambiente (Seconserma) garantiu que retomaria com o programa, rebatizado como Rios Cariocas. Agora, renova a promessa de que ele voltará em breve, e garante que, até lá, a limpeza será feita por meio de "contratos de manutenção da Fundação Rio Águas".

No terminal de ônibus do Cosme Velho, uma grade para segurar detritos sólidos estava lotada de lixo acumulado na última quarta-feira. Antes do deságue, no Flamengo, a água do Carioca passa por uma Estação de Tratamento de Rio (ETR), da prefeitura. A Seconserma garante que, diariamente, é feito o controle de turbidez e pH para verificação da eficiência do tratamento.

- A água do mar está aparentemente clara. A que sai do rio contrasta, está escura. Se a estação funcionasse bem, acredito que não estaria assim - comenta o relações-públicas Roberto Azevedo de Almeida, morador do Flamengo há 20 anos.

Dono de um bar em Guadalupe, Pedro de Souza costuma pescar junto à foz do Carioca, e recorda que, no passado, conseguia pegar um robalo ali:

- Há alguns anos, só dá para pescar peixes pequenos, que convivem com o esgoto, como tainha, cocoroca e carapeba. Essa água está podre.

Embora não sejam feitas medições no deságue do Carioca, dados de balneabilidade da Praia do Flamengo mostram o seu grau de poluição. Só em 8% dos boletins do Instituto Estadual do Ambiente (Inea) de 2017 o mar estava próprio para banho, índice bem inferior aos 43% de 2016.

Rio deu nome a cariocas

E o que surgiu primeiro? O nome do rio ou de quem nasce na capital do estado? O do rio, garante o historiador Nireu Cavalcanti. Ele explica que, em 1531, o curso d'água era conhecido como Aguada dos Marinheiros. É que, além dos índios, ele abastecia navios que paravam na Baía de Guanabara. Naquele ano, para expulsar estrangeiros da costa, os irmãos Martim Afonso e Pero Lopes de Souza atracaram junto à foz, com sua frota, desembarcaram e construíram uma casa de pedra.

- Uma das versões contada por estudiosos da língua tupi é que os índios acharam esquisito morar em casa de pedra. O rio tinha muito acari, um tipo de peixe. E os índios fizeram uma analogia: os portugueses (pela semelhança entre suas armaduras e as placas características do corpo desse peixe) eram como o acari e moravam em casa (oca) de pedra. Daí, passaram a chamar o rio de Akari oka, que virou Carioca para os portugueses.

Segundo o historiador, data do fim do século XVIII a primeira referência conhecida do termo carioca para designar os que nascem na cidade do Rio. Em um documento, militares citavam problemas para montar tropas com cariocas, considerados festeiros.

- Cariocas, honremos o nome que temos. Fico indignado com o descaso com o rio-monumento da Cidade Maravilhosa - desabafa Nireu, que integra o Movimento carioca o rio do Rio, que formulou o pedido de tombamento ao Inepac.

Também integrante do movimento, o engenheiro sanitarista Alexandre Pessoa Dias, da Fundação Osvaldo Cruz, recorda que, durante toda a época colonial, o Carioca foi a principal fonte de água doce da população. Já nos séculos XVII e XVIII, com a construção do Aqueduto da Carioca, suas águas foram canalizadas e desviadas. Concluído em 1750, o aqueduto alimentava fontes e chafarizes. Em 1896, com a inauguração da linha elétrica de bondinhos, os Arcos da Lapa acabaram se tornando um viaduto.

- No caminho do Carioca, há um conjunto de estruturas dos períodos colonial, imperial e republicano, constituído pelos Arcos da Lapa, além de reservatórios, canalizações, represas de controle de vazões e fontes de água e chafarizes - destaca Dias.