Como entender melhor o processo de uso do solo brasileiro

Publicado em 30/04/2019 por G1 Natureza

Por Amelia Gonzalez
Link para o vídeo:
O cidadão comum que viaja de carro pelo Brasil há de ficar, legitimamente, confuso diante das notícias sobre desmatamento versus produção de alimentos e desenvolvimento. Há dados que divergem, são muitas as instituições que pesquisam e atualmente há um claro direcionamento do governo federal, do Ministério do Meio Ambiente, no sentido de dizer que o país protege demais suas florestas.
Este “excesso de proteção” estaria prejudicando nosso crescimento e tirando nossa possibilidade de nos posicionarmos no ranking dos que mais produzem alimentos para os 10 bilhões de habitantes no planeta – população estimada para 2050. O crescimento econômico, que tanto enche os olhos do cidadão comum, sobretudo em tempos de crise, ficaria assim seriamente comprometido. Mas, ao mesmo tempo, para quem está fazendo sua viagem de carro pelo Brasil, a informação parece não dialogar com a paisagem. Quilômetro por quilômetro, cada vez se vê menos florestas e mais plantações.
Ontem mesmo, o leitor que se interessa pelo tema foi dormir com o coração apertado depois de ler que o Brasil desmatou 11% de sua área florestal no período que vai de 1985 a 2017. Para quem não lida com muita intimidade com esses dados, a notícia remonta a motosserras fazendo aquele barulho ensurdecedor e derrubando árvores. É triste, deixa a gente assustado. E a questão não é só no Brasil: no livro “Capitalismo e Colapso Ambiental” (Ed. Unicamp), de Luiz Marques, há informações de que 2,3 milhões de quilômetros quadrados de florestas foram perdidos, no mundo, no período que vai de 2000 a 2012. Só no Sudeste Asiático foram perdidos mil quilômetros quadrados para a aquacultura do cultivo de arroz e de palmeiras para a indústria do óleo de palma.
O cenário fica, de fato, cada vez menos encorajador para quem se preocupa com a fome no mundo, que hoje ainda atinge mais de 800 milhões de pessoas. A sensação é de que a humanidade perdeu o prumo, não tem mais condições de se garantir no planeta. E, no fim das contas, como garantir alimento e vida de qualidade se estamos decretando o fim dos bens naturais que nos ajudam a provê-los?
Até que surgem outros estudiosos que nos fornecem uma visão diferente e, de certa forma, mais otimista. Hoje pela manhã, o vídeo lançado pela equipe do Observatório do Clima (OC) faz um estudo sobre vários resultados de pesquisas, incluindo o do MapBiomas, divulgado ontem que compõe um mapa da produção do Brasil desde 1985 até 2017 e o Atlas da Agropecuária Brasileira, que nos dá uma ideia sobre a quem pertencem e quem gera cada pedaço do território brasileiro.
Pois bem. Este estudo do OC desfaz a contradição entre preservação das matas e florestas e produção de alimentos. Na verdade, o que existe no Brasil é “falta de inteligência para usar seu território”, segundo diz Tasso Azevedo, coordenador técnico do Observatório do Clima e coordenador geral do MapBiomas.
É um jeito cuidadoso de denunciar que, também no uso da terra, o país é extremamente desigual, já que o agricultor brasileiro, se tivesse condições e ferramentas adequadas, poderia mudar este cenário. E mais: as terras degradadas, ou seja, aquelas que são deixadas de lado pelos grandes produtores depois que já não servem mais. Isso acontece muitas vezes em áreas de pastagem: os animais se alimentam da terra e, em vez de os donos usarem técnicas e investirem dinheiro para recuperá-la, eles deixam para lá e seguem para outro pedaço.
“O Brasil tem espaço de sobra para conservar a sua diversidade de culturas e comunidades, proteger o clima e se tornar o maior produtor de alimento, de fibras e energia biossustentável do mundo. Basta usar seu território com inteligência”, diz Azevedo.
O vídeo ajuda a desconstruir também algumas informações que vêm sendo divulgadas, entre elas a de que o Brasil é o país com mais florestas do mundo. Não, é a Rússia. O Brasil fica em segundo lugar neste quesito. Também não somos os que mais conservam florestas: Finlândia, Japão, Congo, Suriname, conservam mais. Sim, e o que o governo federal afirma, de que ocupamos pouca área para produzir alimentos, também é contestado no vídeo:
"O Brasil tem a terceira maior área de produção agropecuária do mundo e fica atrás só da China e dos EUA. São 245 milhões de hectares dedicados à lavoura e às pastagens, o que equivale a quase uma vez e meia a área de agropecuária de toda a Europa”.
Se é uma produção sustentável, é outra discussão. Prefiro buscar autores que destrinchem esta palavra que passamos a usar tão desenfreadamente nas duas últimas décadas. Em “Ecologismo dos pobres” (Ed. Contexto), de Joan Martinez Allier, o autor destrincha a expressão:
“Desenvolvimento’ implica mudanças na estrutura econômica e social, enquanto ‘crescimento’ significa uma expansão na escala da economia que provavelmente não tem condições de se sustentar ecologicamente. Por essa exata razão, ‘desenvolvimento sustentável’ é aceito pela maioria dos economistas ecológicos, ao passo que ‘crescimento sustentável’ não é. No meu ponto de vista, ‘desenvolvimento’ é uma palavra detentora de uma forte conotação de crescimento econômico e modernização uniforme. Nessa ordem de colocações, seria preferível deixá-la de lado e falar somente de ‘sustentabilidade’”.
É importante visitar os teóricos que nos ajudam a fazer a exata ligação entre todos os dados de pesquisas sobre o território explorado e aquilo que, no fim e ao cabo, se quer: um país mais igualitário. Neste sentido, é exata a afirmação de Tasso Azevedo no filme quando ele exalta a condição do agricultor brasileiro. É preciso dar a estes homens e mulheres mais condições para que eles possam entrar no mundo do agronegócio, hoje ocupado por empresas que têm tecnologia e recursos de sobra.
Neste sentido, é gratificante visitar também o pensamento de Ignacy Sachs, ecosocioeconomista que já foi pesquisador da ONU, acompanhou a primeira Conferência do Meio Ambiente em Estocolmo (1972), participou ativamente da Rio-92 e tem anos de estudos na Índia e muitos trabalhos realizados no Brasil e na América Latina. Sachs, numa das inúmeras palestras que já proferiu, falou sobre a produção alimentar. Para ele, é preciso pensar numa alternativa a um modelo que “coloca de um lado cem mil hectares de soja, de outro cem mil hectares de pasto, em outro lugar cem mil hectares de cana-de-açúcar, produzindo lado a lado álcool para os carros, carne e soja para exportação”.
“Talvez exista a possibilidade de imaginar sistemas integrados que fazem uso mais intensivo do recurso solo, combinam as diferentes produções de modo que os subprodutos ou os resíduos de uma fase da produção sejam recuperados como insumo na outra fase”, disse ele.
É, em parte ao menos, do que se trata a “inteligência” a que se refere Tasso Azevedo no vídeo. Vale a pena refletir sobre isto, até para, numa próxima viagem de carro, não ficarmos tão reféns de sentimentos de impotência diante de informações que nos deixam tão distantes do processo de produção e uso do solo brasileiro.