No Cerro-Corá, favela com UPP desde 2013, o bom exemplo de pacificação

Publicado em 15/03/2018 por O Globo

RIO - Aos pés do Corcovado, cercado de área verde, o Cerro-Corá, no Cosme Velho, é um ponto fora da curva quando o assunto é o projeto das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). Embora já tenha sido controlada por traficantes da maior facção criminosa do Rio, a favela desfruta de uma tranquilidade, que não se vê nas outras 37 comunidades onde a PM mantém patrulhamento. Levantamento feito pelo aplicativo Fogo Cruzado, divulgado pelo GLOBO no último domingo, revelou que o Cerro-Corá é a única comunidade com UPP onde não houve qualquer disparo nos últimos 20 meses. Os moradores garantem, contudo, que o silêncio das armas acontece há mais tempo.

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- Para não dizer que não ouvimos tiros aqui, ouvimos da comunidade vizinha, o Morro dos Prazeres, em Santa Teresa - afirma Paulo André de Almeida, de 34 anos.

A comunidade atendida pela UPP é dividida em cinco áreas: Cerro-Corá, Guararapes, Vila Cândido, Coroado e Júlio Otoni. Até 2001, a ação do tráfico era intensa, contam os moradores. Muito mais do que o trabalho da polícia foi a postura dos moradores que afastou os bandidos. Sem o apoio da população, eles foram perdendo espaço até que, pouco antes da chegada da UPP, em junho de 2013, já não controlavam a rotina da comunidade. Nascido e criado no Cerro-Corá, o motorista Luiz Fernando Barreto, de 33 anos, não se intimida ao dizer que a UPP deu certo.

- Eu já vi várias gerações aqui. Já perdi muitos amigos para o tráfico. Desde que a UPP chegou, o relato de tiros é zero. É fundamental (a UPP) para manter a paz na região. O morador nunca apoiou traficantes aqui e acredito que, por isso, tenham ainda mais dificuldade de se estabelecerem - diz ele. - Perdi um primo assassinado por bandidos. Acho que ele foi a última pessoa a morrer pelo tráfico aqui na comunidade. Mas hoje vivemos momentos de paz. Aqui é o melhor lugar para criar os filhos - garante ele, pai de um rapaz de 16 anos.

BOM CONVÍVIO ENTRE PMs E MORADORES

A relação entre PMs e moradores é um dos pontos mais altos do sucesso do projeto. Nem fuzis são usados pelos PMs durante o patrulhamento ostensivo na comunidade. Por lá, os soldados portam apenas pistolas e carabinas .40. Quatro projetos sociais - de artes marciais, música, reforço escolar e informática - são tocados exclusivamente por policiais militares. O respeito entre a corporação e a comunidade se reflete no convívio com as crianças, que fazem questão de cumprimentar os policiais que circulam pelas ladeiras do Cerro-Corá.

- Acho que aqui é a única favela do Rio em que os policiais dão boa-tarde, e o morador responde e ainda pergunta se eles querem água - conta Paulo André, que também é vice-presidente da associação de moradores.

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Embora não haja ostentação de armas por parte de traficantes, pontos de venda de drogas ainda resistem, principalmente na localidade conhecida como Armazém. Os números, contudo, revelam a realidade de uma região pacificada. De acordo com a Coordenadoria de Polícia Pacificadora (CPP), no ano passado, houve a apreensão de um revólver calibre 22 e um simulacro de pistola. Dezoito pessoas também foram presas e cinco menores apreendidos, a maioria por roubos e pequenos delitos nos acessos à comunidade. Também foram registrados alguns casos de agressão contra mulheres e de venda de pequenas quantidades de droga.

- O Cerro-Corrá já foi um ponto estratégico para a criminalidade porque, pela região de mata, liga pontos sensíveis como os morros de São Carlos, da Mineira e dos Prazeres, na região central da cidade, a favelas da Zona Sul, como Tabajaras e Cabritos. Hoje temos um resultado positivo naquela localidade que é motivo de um grande esforço de outras ações. Por mais que os tempos para as UPPs sejam adversos, em nenhuma delas, nós encerramos as ações de proximidade com a população e os projetos sociais. Tudo isso tem sim o seu peso e é revertido em prol da ação policial - esclarece o porta-voz da PM, major Ivan Blaz.

Para o coronel Robson Rodrigues, o ex-chefe do Estado-Maior Operacional da PM, quando o policial é acolhido pelos moradores, o diálogo prevalece:

- Quando há muito conflito entre a população e a polícia, quando há desacatos, a relação fica mais difícil. Por mais que o tráfico saia, ainda pode haver conflito com a população local, o que não acontece nessa comunidade.

Só a presença da polícia não satisfaz as necessidades dos 4,5 mil moradores - Marcelo Theobald / Agência O Globo

SEM SERVIÇOS DA PREFEITURA

Mas só a presença da polícia não satisfaz as necessidades dos 4,5 mil moradores do Cerro-Corá, que reivindicam maior presença da prefeitura. Na Clínica da Família, por exemplo, não há médicos há pelo menos seis meses. Quem precisa de atendimento diz que a farmácia da unidade também não tem remédios suficientes. O município não oferecer projetos para crianças, jovens e idosos.

- O campinho de futebol está tomado pelo mato, abandonado. Quando as crianças não estão na escola, na creche, ou atendidos nos projetos dos policiais, elas improvisam um jogo de futebol ou não fazem nada. Sem contar que tem muita gente desempregada em busca de uma oportunidade - desabafa Sandra Regina dos Santos, de 50 anos. - Eu sou funcionária pública. Estou mais garantida, mas quem não é, tem muita dificuldade de arrumar um emprego por aqui.

Procurada, a Secretaria de Saúde informou que o Centro Municipal de Saúde Manoel José Ferreira tem dez equipes. Esclareceu ainda que, em casos de falta de medicamentos ou insumo, o usuário deve registrar reclamação na direção da unidade ou informar à prefeitura pelo telefone 2599-4760. A Subsecretaria municipal de Esportes e Lazer informou que, no planejamento, consta o projeto de inclusão social para áreas carentes, mas que ainda está em processo de licitação. A Subsecretaria de Política para o Idoso enviará um técnico à comunidade para verificar a viabilidade de se instalar ali uma academia da terceira idade.