Reinstalação de área para cães coloca vizinhança do Leblon em pé de guerra

Publicado em 27/04/2018 por O Globo

RIO - Uma briga digna de pit-bull voltou ao Leblon. O motivo da batalha é um "parcão" que a prefeitura reinstalou na Praça Cláudio Coutinho, entre as ruas Fadel Fadel e Adalberto Ferreira, em frente ao condomínio Selva de Pedra. Uma área para cachorros tinha sido implantada no local em 2013, mas foi desativada oito meses depois, com a vitória de um grupo contrário à ideia. Num novo round, os defensores dos cães apresentaram um abaixo-assinado com 1.800 nomes e um termo de compromissos e limites firmado com a OAB. A Secretaria municipal de Conservação e Meio Ambiente (Seconserma), então, incluiu o cantinho dos cães no projeto de revitalização da praça. Mas a contenda está longe do fim. Diante das queixas, a secretaria informa que não há data para a inauguração e diz que ainda avalia se mantém ou não o espaço.

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Os que são contra o "parcão" têm o apoio da Associação de Moradores do Leblon (Ama-Leblon) e da Associação dos Moradores da Selva de Pedra. O projeto está em fase de teste, mas eles já reclamam do barulho dia e noite, pois o cercadinho é aberto às 7h e fechado às 19h por um guarda municipal. A presidente da Ama-Leblon, Evelyn Rosenzweig, anuncia que as duas entidades estão dispostas a ir à Justiça.

PARECE GUERRA DE FACÇÕES

Os protetores dos cães são liderados pela Associação Viva Selva de Pedra e pelo Grupo Cachorreiros do Leblon. Eles têm um trunfo: um documento firmado com a Comissão de Proteção e Defesa dos Animais da OAB do Rio. Ele proíbe, por exemplo, animais no cio no local. Os mais brigões deverão estar com guia, e os donos precisam recolher a sujeira dos bichos.

- Parece guerra de facções - diz uma moradora do Leblon, sem se identificar, que ontem levou seu cachorro ao "parcão".

Um dos argumentos da presidente da Ama-Leblon é que há três "parcões" próximos: no Largo da Memória, no Jardim de Alah e na Lagoa.

- Não vejo necessidade de infernizar os moradores da Fadel Fadel, da Cupertino Durão e da Adaberto Ferreira - dispara.

A arquiteta Lilian Gonzaga, que trabalha no seu apartamento, faz coro:

- As pessoas soltam os animais, e eles brigam e latem muito. Não posso sair da minha casa. Quem tem que se mudar é o "parcão". Por que não levam o "parcão" para a Praça Milton Campos (no meio da Selva de Pedra)?

Área reservada para cães na Praça Cláudio Coutinho, no Leblon - Marcos Ramos / Agência O Globo

O professor Roger de Moraes, que também mora na vizinhança, tem dois cachorros, mas admite que viraria bicho se tivesse que suportar algo parecido.

- Adoro animais. Mas não gostaria de ser condenado a viver todos os dias em frente a uma área de lazer para cães, que latem alegremente o dia todo.

Representante do Cachorreiros do Leblon, Sandra Greenhald contesta:

- Estão querendo minar o "parcão". A lei do silêncio será respeitada. Nós temos o documento firmado com a OAB.

O presidente da Comissão de Proteção e Defesa dos Animais da OAB-RJ, Reynaldo Velloso, entra no debate:

- Estamos diante de um paradigma: o respeito por todos os seres viventes, não só o homem.

Provocada a opinar, a passeadora de cães Jéssica Martins, que estava no "parcão", desconversa:

- Não quero me meter nessa polêmica.