O Sínodo para a Amazônia e a invenção do verbo amazonizar

Publicado em 02/05/2019 por Amazonas Atual

*Marcia Oliveira
Em pleno Processo Sinodal, as escutas realizadas em toda Pan-Amazônia durante toda segunda metade de 2018, apontam muitas novidades. Uma delas, é a pertinência da invenção do verbo amazonizar.Trata-se de um novo vocábulo a ser incluído futuramente à gramática da língua portuguesa graças ao Sínodo para a Amazônia.
Amazonizar é um verbo de ação que indica primeiramente um extenso e intenso processo de estudo e conhecimento da Amazônia. É preciso conhecer para amar, proteger e defender, evocam os clamores dos povos da Amazônia em praticamente todos os relatórios das Escutas Sinodais realizadas nas pequenas comunidades, nos fóruns amplos de debates nacionais e internacionais, nas Assembleias territoriais realizadas em todas as dioceses e prelazias da Amazônia.
Amazonizar é uma nova palavra que significa muitas coisas, dependendo de onde é acionada e dos objetivos que se propõe. No campo político, é uma resposta ao disparate economicista da internacionalização da Amazônia. Ao invés de internacionalizar a Amazônia, propõe-se concretamente amazonizar o mundo. Isso significa carregar o mundo de sentido, de sensibilidade, de contemplação, de admiração e comprometimento para com a obra da criação presente na exuberância da Amazônia.
Evoca respeito às identidades culturais forjadas a partir da relação de respeito e de convivência com a natureza. Nessa perspectiva, a terra, a floresta e os rios simbolizam o locus da organização social e política, lugar da produção e transmissão de práticas sustentáveis que se encontram em todos os lugares da Amazônia. Do latim, locus significa literalmente “lugar”, “posição”, “local”. Representa o “lugar”. Para os povos ameríndios a Amazônia representa a sua casa coletiva, seu lugar por excelência. Para os Povos da Amazônia a terra não é propriedade, é lugar e espaço vivencial. Não é terreno nem gleba que se negocia no mercado imobiliário. É lócus e território imaginado, sentido e vivenciado. Lugar da memória e do respeito aos antepassados.
É o lugar da agroecologia, do extrativismo responsável voltado para a sobrevivência, da pesca, da festa, dos jogos e danças tradicionais. Conviver com bioma amazônico representa um grande desafio a ser reaprendido com os Povos Tradicionais da região, de maneira especial os povos indígenas, camponeses e ribeirinhos.
Em muitos contextos da Amazônia, o verbo amazonizar está sendo evocado como memória de resistência a um processo intenso de violência praticado contra a Amazônia desde a colonização. Os relatos dos cronistas das primeiras viagens de portugueses e espanhóis, ao longo dos rios Solimões e Amazonas, nos séculos XVI e XVII, fazem inúmeras referências à abundância de alimentos que encontraram em todas as povoações ao longo dos rios principais e de seus afluentes, à alta densidade populacional de numerosas “nações” que habitavam a região.
Projeções feitas a partir de documentos e de pesquisas arqueológicas estimam a população indígena, por ocasião da colonização, entre três e cinco milhões de pessoas, somente na Amazônia brasileira. A perspectiva histórica desses povos foi interrompida de forma brusca e violenta pelo projeto colonial que, valendo-se da guerra, da escravidão, da ideologia religiosa e das doenças, provocou na Amazônia uma das maiores catástrofes demográficas da história da humanidade, além de um etnocídio sem precedentes.
Em debates mais específicos, realizados nos diversos fóruns do Processo Sinodal, o verbo amazonizar representa um esforço coletivo para tornar conhecidas as inúmeras experiências de convivência com a Amazônia, tanto no campo como nas cidades. Atualmente, muitas são as instituições preocupadas e empenhadas na busca de meios e possibilidades de uma convivência que retome e dê novos significados a construção de relações humanas baseadas em práticas de cooperação e de participação buscando alternativas para se viver na lógica da economiasolidária pautada na partilha e na solidariedade, nas relações de convivência, respeito e cuidado com a terra, as águas e florestas.
Amazonizar  também representa um projeto de convivência que os povos Afroameríndios denominamBem Viver que se contrapõe ao entendimento do significado do progresso técnico e industrial desenvolvido na Amazônia pelos grandes empreendimentos empresariais economicistas que vêm provocando imensuráveis processos de degradação da natureza e da biosfera que tem como referencial a mundialização do mercado econômico, sem regulação externa que cria pequenas ilhas de riquezas, mas também zonas crescentes de miséria, pobreza e exclusão social e econômica.
*Marcia Oliveira é doutora em Sociedade e Cultura na Amazônia (UFAM), com pós-doutorado em Sociedade e Fronteiras (UFRR); mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia, mestre em Gênero, Identidade e Cidadania (Universidad de Huelva - Espanha); Cientista Social, Licenciada em Sociologia (UFAM); pesquisadora do Grupo de Estudos Migratórios da Amazônia (UFAM); Pesquisadora do Grupo de Estudo Interdisciplinar sobre Fronteiras: Processos Sociais e Simbólicos (UFRR); Professora da Universidade Federal de Roraima (UFRR); pesquisadora do Observatório das Migrações em Rondônia (OBMIRO/UNIR). Assessora da Rede Eclesial Pan-Amazônica - REPAM/CNBB e da Cáritas Brasileira.